Brasil registra quase 395 mil pessoas em situação de rua. Saúde mental deste público exige atenção

Dormir com segurança, conseguir uma refeição e ter acesso a um banheiro são necessidades básicas, mas também desafios na vida de quem está em situação de rua. A falta de moradia expõe pessoas à violência e dificulta o cuidado cotidiano com a própria saúde. Neste Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio, essa realidade exige espaço no debate público.

Como oferecer escuta, proteção e acompanhamento a quem precisa enfrentar, todos os dias, a insegurança de viver sem uma casa?

O Brasil registrou 394.863 pessoas em situação de rua no Cadastro Único em julho de 2026. O dado consta de informe do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Rede Criança Não é de Rua. Entre os registros, 9.976 eram de crianças e adolescentes; 4.381 tinham até seis anos. A contagem revela a dimensão do problema, mas exige uma ressalva, pois são registros administrativos, não um censo capaz de localizar todas as pessoas nessa condição. 

VIDA SOB AMEAÇA

A violência compromete qualquer possibilidade de bem-estar. Na apresentação “A cartografia invisível: 10 anos de violência contra a população em situação de rua”, o Observatório informa a presença de violência física em 65% das notificações analisadas e psicológica em 42%. As categorias podem se sobrepor.

A análise utiliza dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e destaca episódios repetidos de agressão e barreiras ao atendimento. Esses percentuais descrevem as notificações estudadas, não a proporção de toda a população de rua vitimada. Ainda assim, documentam uma rotina de exposição a danos físicos e emocionais.

Em São Paulo, o “Conexão Cidadã”, programa da Ancat (Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis) aproxima Catadores em vulnerabilidade dos serviços públicos, inclusive trabalhadores em situação de rua.

Quem acompanha essa realidade de perto sabe que uma entrega pontual não resolve uma trajetória inteira de exclusão. Adriana Cabral, coordenadora do Programa, resume o princípio adotado pela equipe:

O ponto central é entender que uma situação tão complexa não se resolve com uma ação isolada. No ‘Conexão Cidadã’, a gente trabalha com a ideia de rede, porque nenhum projeto, sozinho, dá conta de todas as camadas que atravessam a vida de quem está em situação de rua. Hoje, as causas passam pelo alto custo de vida, pela falta de moradia, pela migração, pelo desemprego, por rompimentos familiares e até pelas emergências climáticas. Então, precisamos olhar a trajetória de cada pessoa e articular assistência social, saúde, Caps, sistema de Justiça, Judiciário e iniciativas da sociedade civil”. 

Adriana Cabral, coordenadora do Programa “Conexão Cidadã São Paulo”, da Ancat (Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis). Foto: Divulgação Ancat

DIREITOS E ACESSO AO CUIDADO

No poder público, o Plano Ruas Visíveis reúne ações voltadas a moradia, saúde, educação, alimentação, trabalho e renda. Entre os instrumentos previstos estão recursos destinados aos Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua, conhecidos como Centros Pop, ao Serviço Especializado de Abordagem Social e a vagas de acolhimento de adultos e famílias.

São frentes distintas: a abordagem busca contato com as pessoas nos territórios; o acolhimento oferece proteção provisória; as medidas de moradia e renda buscam enfrentar a permanência nas ruas. A existência dessas políticas, porém, não demonstra, por si só, atendimento suficiente em cada município.

De modo geral, quem vai par a rua não faz isso por uma escolha consciente, por um ideal de liberdade, como algumas pessoas supõem. Muitas vezes essa pessoa passou por rompimentos familiares ou tiveram prejuízos econômicos e, muito frequentemente, estão em sofrimento psíquico”, comenta Adriana.

Na saúde, existe uma estratégia dirigida especificamente a esse público: o Consultório na Rua, do Sistema Único de Saúde (SUS). Suas equipes atuam de forma itinerante e podem reunir profissionais de enfermagem, psicologia, assistência social e outras áreas. O cuidado inclui saúde mental, com articulação entre Unidades Básicas de Saúde (UBS) e serviços especializados.

Foto: Levy Ferreira/SMCS

Infelizmente, apesar de extensa pesquisa, não foi identificado, nas fontes federais consultadas, um programa nacional dedicado exclusivamente à saúde mental de pessoas em situação de rua. O Consultório na Rua oferece atenção integral, com ações de redução de danos e acompanhamento conforme as necessidades de cada pessoa.

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) integram essa rede e atendem pessoas em sofrimento psíquico intenso, inclusive aquelas em situação de rua. São serviços abertos à comunidade, com apoio psicológico, acompanhamento clínico e acolhimento de crises.

Segundo o Ministério da Saúde, o primeiro acolhimento é gratuito e dispensa agendamento: a pessoa pode procurar diretamente a unidade de sua região. As UBS também constituem uma porta de entrada. Mesmo nos municípios sem Consultório na Rua, a responsabilidade pelo atendimento permanece com as demais equipes do SUS.

Estamos falando de integrar vários atores sociais para que o atendimento são aconteça de forma fragmentada. Conectar serviços de saúde, saúde mental, assistência e justiça, em ações intersetoriais é uma estratégia de enfrentamento dessa realidade tão complexa, que é reflexo de um quadro de desigualdade profunda”, finaliza Adriana.

Adriana Cabral, coordenadora do Programa “Conexão Cidadã São Paulo”, da Ancat (Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis). Foto: Divulgação Ancat

Wellington Torres

Jornalista (Mtb nº 78/915/SP), pós-graduado em Assessoria de Comunicação e Mídias Digitais (Anhembi Morumbi), Marketing/Analytics (Anhanguera) e atualmente cursando faculdade de Letras (Univesp). Heavy user de redes sociais, fã de tecnologia e assisto uma série de vez em quando.

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