Acordar cansado todos os dias não é normal; entenda quando a insônia vira doença

Pesquisa do Ministério da Saúde revela que quase um terço dos adultos das capitais brasileiras apresenta sintomas de insônia; especialistas alertam para os riscos e explicam quando é necessário buscar tratamento.

O despertador toca, mas o corpo parece não ter descansado. Levantar da cama exige esforço, a concentração desaparece ao longo do dia e o cansaço vira parte da rotina. Para milhões de pessoas, uma noite mal dormida deixou de ser exceção. Dados do Ministério da Saúde revelam a dimensão do problema: em 2024, 31,2% dos adultos da cidade de São Paulo relataram pelo menos um sintoma de insônia.

O levantamento faz parte do Vigitel, pesquisa que acompanha fatores de risco à saúde nas capitais brasileiras. Embora comum, acordar cansado todos os dias não deve ser tratado como consequência inevitável do trabalho, da idade ou da vida corrida.

No conjunto das 26 capitais e do Distrito Federal, o cenário também preocupa. Segundo o Vigitel 2024, 31,7% dos adultos apresentaram ao menos um sintoma de insônia, com diferença expressiva entre mulheres (36,2%) e homens (26,2%). Outro dado chama a atenção: 20,2% dos entrevistados disseram dormir menos de seis horas por noite. Entre as pessoas com menor escolaridade, a frequência dos sintomas foi maior.

Os números mostram como os problemas de sono atravessam diferentes grupos da população, embora apresentar sintomas não signifique, necessariamente, ter diagnóstico de insônia crônica.”

A insônia vai muito além da dificuldade para adormecer. Acordar repetidas vezes durante a madrugada, despertar antes do horário desejado e não conseguir voltar a dormir também são sinais importantes. Segundo o Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue dos Estados Unidos (NHLBI), o problema pode provocar sonolência durante o dia, irritabilidade, dificuldade de concentração e alterações de humor. Há pessoas que passam horas na cama, mas despertam com a sensação de não ter descansado.

O sono precisa ter duração suficiente e qualidade. Dormir muitas horas não significa, obrigatoriamente, dormir bem.

QUANDO A INSÔNIA VIRA DOENÇA

Uma noite ruim depois de um dia estressante não caracteriza, por si só, uma doença. O alerta aumenta quando a dificuldade para iniciar ou manter o sono ocorre pelo menos três vezes por semana, durante três meses ou mais, mesmo quando a pessoa dispõe de tempo e condições adequadas para descansar. Esse é um dos principais critérios utilizados no diagnóstico da insônia crônica.

O prejuízo durante o dia também pesa na avaliação médica. Esquecimentos, falta de atenção, irritação e queda no desempenho profissional são sinais de alerta. O problema merece investigação antes mesmo de completar três meses, especialmente quando interfere na vida cotidiana.

As causas são variadas. Preocupações financeiras, pressão profissional, ansiedade, jornadas noturnas, horários irregulares e excesso de estímulos antes de dormir podem comprometer o descanso. Alterações hormonais, principalmente durante a gestação e a menopausa, também contribuem para a maior frequência de insônia entre mulheres.

O problema merece atenção porque ultrapassa o desconforto de uma noite em claro. Estudos reunidos pelo NHLBI associam a insônia crônica a maiores riscos de hipertensão, doenças cardiovasculares e diabetes. A privação de sono também prejudica a memória, a capacidade de reação e a segurança no trânsito.

Outro cuidado importante é não confundir todo cansaço matinal com insônia. Pessoas que dormem por várias horas e continuam exaustas podem apresentar outros distúrbios, como a apneia obstrutiva do sono, caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante a noite. Ronco alto, engasgos durante o sono, dores de cabeça ao despertar e sonolência excessiva estão entre os sinais de alerta.

Nesses casos, a avaliação profissional pode incluir exames específicos. O diagnóstico deve considerar os horários de descanso, os hábitos cotidianos, o histórico de saúde e a possibilidade de outras doenças associadas.”

TRATAMENTO NÃO COMEÇA NA FARMÁCIA

A boa notícia é que a insônia tem tratamento. A terapia cognitivo-comportamental específica para insônia, conhecida como TCC-I, é recomendada como primeira opção para adultos com o problema crônico pelo Colégio Americano de Médicos (ACP) e pelo NHLBI. O tratamento costuma durar de seis a oito semanas e trabalha comportamentos, pensamentos e hábitos que dificultam o descanso.

Entre as estratégias estão o controle dos horários, técnicas de relaxamento e a reconstrução da relação entre a cama e o sono. Medicamentos podem ser necessários em situações específicas, mas exigem avaliação médica. O uso frequente de remédios para dormir, sem acompanhamento, não resolve necessariamente a origem do problema.

Algumas atitudes ajudam a proteger o sono: manter horários regulares, reduzir o consumo de cafeína no fim do dia, evitar bebidas alcoólicas perto da hora de dormir e diminuir o uso de telas antes de deitar. Mas essas medidas não substituem tratamento quando existe um transtorno instalado. O Ministério da Saúde também alerta que a melatonina, embora comercializada no Brasil como suplemento alimentar, não possui indicação aprovada no país para tratar insônia.

Quem acorda cansado constantemente, sente sono excessivo durante o dia ou enfrenta dificuldades frequentes para dormir deve procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou atendimento médico. Não é preciso esperar o problema se agravar. Descansar não é luxo, e conviver com a exaustão não pode ser considerado normal.

Wellington Torres

Jornalista (Mtb nº 78/915/SP), pós-graduado em Assessoria de Comunicação e Mídias Digitais (Anhembi Morumbi), Marketing/Analytics (Anhanguera) e atualmente cursando faculdade de Letras (Univesp). Heavy user de redes sociais, fã de tecnologia e assisto uma série de vez em quando.

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