“Conexão Cidadã”, da Ancat, rompe a invisibilidade de milhares de Catadores nas ruas do Brasil
Existe quem sustenta parte da reciclagem brasileira sem endereço fixo, contrato, equipamento adequado e, muitas vezes, sem sequer aparecer por inteiro nas estatísticas oficiais. É nesse ponto, onde trabalho, sobrevivência e exclusão social se cruzam, que a Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat) concentra uma de suas ações mais importantes.
Criado a partir de uma experiência iniciada em São Paulo, em 2023, o “Conexão Cidadã” rompeu fronteiras, chegou a diferentes estados e estabeleceu uma meta ousada: alcançar aproximadamente um milhão de Catadores e Catadoras até 2028. O desafio vai além dos números. Significa localizar, reconhecer e garantir acesso a direitos a uma parcela da categoria historicamente esquecida pelas políticas públicas.

QUEM RECICLA TAMBÉM PRECISA APARECER NOS DADOS
Os números disponíveis ajudam a dimensionar essa realidade, mas também expõem o tamanho da invisibilidade. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em 2024 a partir de dados do Cadastro Único de agosto de 2023, identificou 227 mil pessoas oficialmente registradas em situação de rua.
Entre os adultos entrevistados pelo Formulário PopRua, 69% declararam exercer alguma atividade em busca de renda e 28% apontaram a catação de materiais recicláveis. O percentual supera atividades como construção civil, limpeza, vendas e trabalho como guardador de carros. Embora o CadÚnico tenha ampliado seus registros nos anos seguintes, ainda falta um levantamento nacional capaz de mostrar, com precisão atualizada, quantos Catadores e Catadoras vivem nas ruas.
Essa ausência estatística não é detalhe: dificulta políticas públicas, dimensionamento de serviços e reconhecimento de uma atividade essencial às cidades.
É justamente onde os dados perdem nitidez que o “Conexão Cidadã” assume um papel estratégico. O programa não espera o Catador procurar uma estrutura formal de atendimento. Suas equipes percorrem ruas, comunidades e pontos de coleta em busca de Catadores autônomos, muitos deles afastados das redes de assistência social.
O atendimento inclui cadastro socioeconômico, orientação sobre documentação, encaminhamento a serviços públicos, apoio social e jurídico, entrega de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e ações de formação. Cada contato também permite conhecer trajetórias, locais de trabalho, condições de moradia e obstáculos cotidianos. O Catador deixa de ser apenas alguém visto com um carrinho pelas ruas e passa a ocupar o lugar que sempre lhe pertenceu: o de trabalhador, cidadão e agente ambiental.

CIDADANIA ATRAVESSA FRONTEIRAS
A expansão do “Conexão Cidadã” já alcançou diferentes regiões do País. São Paulo abriu caminho para a experiência, seguida por ações em capitais como Belém, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife, Curitiba e Aracaju. Em cada território, as equipes adaptam as estratégias à realidade local: busca ativa, encaminhamento a políticas sociais, acesso a resíduos do comércio, entrega de equipamentos, organização de dados e articulação com órgãos públicos e entidades parceiras.
A próxima etapa amplia esse alcance. O “Conexão Cidadã 2.0” prevê novas estruturas de gestão, presença em outros municípios e a inclusão de milhares de Catadores em uma rede que pretende crescer até chegar, em 2028, ao impacto de aproximadamente um milhão de trabalhadores.
Para Roberto Rocha, Catador de Material Reciclável e Presidente da Ancat, a dimensão do programa não pode ser medida apenas pela quantidade de cadastros.
Ao acompanhar a expansão do ‘Conexão Cidadã’, temos reforçado que o programa representa um marco na luta por dignidade, reconhecimento e inclusão. A meta de alcançar cerca de um milhão de Catadores e Catadoras até 2028 parte de uma leitura simples e, ao mesmo tempo, incômoda, pois o Brasil reconhece o valor ambiental dos materiais recuperados, mas ainda falha ao reconhecer plenamente quem sustenta essa recuperação todos os dias. A tonelada reciclada aparece nos relatórios; a pessoa responsável por recolhê-la, muitas vezes, continua fora do alcance das políticas públicas.”

DADOS TAMBÉM SÃO DIREITOS
Anderson Nassif, Catador de Material Reciclável e diretor de Logística Reversa da Ancat, chama atenção justamente para essa ausência de informações consistentes sobre a categoria. Em audiência pública na Câmara dos Deputados, ele resumiu o problema ao afirmar:
São centenas de milhares de trabalhadores que merecem estar nas estatísticas e, mais do que isso, merecem respeito”.
A frase ajuda a explicar outra dimensão do Conexão Cidadã. O programa não se limita ao atendimento imediato. Os registros produzidos pelas equipes ajudam a formar uma base mais concreta sobre o perfil dos Catadores autônomos, suas condições sociais, seus territórios e suas necessidades. Informação, nesse contexto, deixa de ser apenas ferramenta administrativa. Torna-se condição para cobrar políticas públicas compatíveis com a realidade.

QUANDO O NÚMERO GANHA NOME E ROSTO
Os relatos de quem já passou pelo programa revelam uma dimensão que nenhuma planilha consegue resumir. Em Belém, Cristiano de Tarso da Silva de Freitas, Catador havia cerca de um ano quando recebeu atendimento, destacou o acolhimento e a oportunidade de ser reconhecido em uma atividade ainda marcada pelo preconceito.
O atendimento é bom. Agradeço a oportunidade que vocês estão concedendo a cada um de nós”, afirmou.
Na mesma capital, Armênio de Souza Alves tornou-se o milésimo Catador atendido pela iniciativa. Em Salvador, a história de Annemone Santos expõe outro lado dessa trajetória: após viver a experiência da catação em situação de rua, ela passou a atuar na mobilização de outros trabalhadores. São histórias diferentes, mas unidas por um gesto que parece simples e ainda é raro: chegar até essas pessoas, ouvi-las e reconhecer suas necessidades.
O horizonte de 2028 concentra, portanto, dois movimentos importantes. O Brasil prepara seu primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, enquanto a Ancat projeta ampliar o alcance de suas ações até aproximadamente um milhão de Catadores e Catadoras. De um lado, o País tenta conhecer com maior precisão quem vive nas ruas. De outro, o Conexão Cidadã já procura quem também trabalha nelas. Cada cadastro, documento recuperado, equipamento entregue, encaminhamento social e acesso a um direito ajuda a desmontar uma invisibilidade construída ao longo de décadas.
A reciclagem brasileira não começa na indústria, no caminhão de coleta ou na esteira de triagem. Para milhares de pessoas, ela começa na rua. E reconhecer quem está ali é condição básica para qualquer projeto de circularidade que pretenda, de fato, incluir pessoas.
