Quando a aposta cobra caro: bets avançam sobre o orçamento, a família e a saúde mental
Uma aposta de poucos reais pode parecer diversão, mas o cenário muda quando surge a necessidade de recuperar o dinheiro perdido. A próxima tentativa leva a outra, os valores aumentam e despesas que antes tinham destino certo começam a disputar espaço com o jogo.
No Brasil, milhões de pessoas já acessam plataformas de apostas e os efeitos dessa relação passaram a ocupar também a agenda da saúde pública. Em Osasco, profissionais da rede municipal acompanham o avanço das demandas de saúde mental em uma estrutura que conta com três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além de atendimento de emergência psiquiátrica.
Uma pessoa que aceitou participar desta reportagem sob a condição de anonimato ajudará a dar dimensão humana a esse problema. Mais importante do que revelar quanto alguém perdeu em uma plataforma é compreender o que aquele dinheiro representava fora dela: aluguel, alimentação, uma prestação, uma reserva construída durante anos ou a tranquilidade financeira da família.
“Eu comecei apostando pouco, sem pensar que seria problema. Depois perdi dinheiro e passei a acreditar que precisava continuar para recuperar. Foi aí que perdi o controle. Comecei a deixar contas para depois e escondi da minha família o quanto estava apostando. O pior não foi só perder dinheiro, foi perceber que eu já não estava tomando decisões pensando na minha vida, mas na próxima aposta.” – relato anônimo.
QUANDO A APOSTA DEIXA DE SER APENAS DIVERSÃO
Luciana Marth Leocadio, enfermeira especialista em Saúde Mental e integrante da Coordenação Técnica de Saúde Mental da Prefeitura de Osasco, chama a atenção para mudanças que podem aparecer antes mesmo de uma dívida de grande proporção.
“O principal sinal de alerta aparece quando a pessoa percebe que já não consegue estabelecer limites para o tempo ou para o dinheiro destinado às apostas. Mudanças de humor, irritabilidade, mentiras para esconder o quanto apostou e prejuízos na rotina também precisam ser observados”, explica.
Um dos comportamentos que mais alimentam esse ciclo é a tentativa de recuperar o prejuízo com uma nova aposta. A pessoa perde R$ 100 e acredita que outra rodada poderá devolver o valor. Se perde novamente, a quantia necessária para “voltar ao zero” cresce e pode abrir espaço para novos depósitos e dívidas.
“Essa tentativa de recuperar o que já foi perdido é especialmente perigosa. A pessoa passa a enxergar uma nova aposta como solução para um problema que a própria aposta ajudou a criar. Quando recursos das despesas básicas entram nesse ciclo, os impactos chegam rapidamente à família”, avalia Luciana.
O autoteste disponibilizado pelo SUS inclui justamente entre seus critérios a volta ao jogo com o objetivo de recuperar perdas anteriores.

17,7 MILHÕES DE BRASILEIROS APOSTARAM EM SEIS MESES
A dimensão do mercado ajuda a explicar por que o tema ganhou espaço no debate sobre saúde pública. No primeiro semestre de 2025, 17,7 milhões de brasileiros fizeram apostas nas plataformas autorizadas. Desse total, 71% eram homens. As empresas registraram R$ 17,4 bilhões em receita bruta de jogo, conhecida como GGR, valor que corresponde à diferença entre o total apostado e os prêmios pagos aos clientes. Portanto, os R$ 17,4 bilhões não representam todo o dinheiro colocado nas plataformas. Dados analisados pelo Tribunal de Contas da União apontaram uma média de R$ 164 por mês de gasto efetivo por apostador ativo no período.
Em Osasco, ainda não há, nos dados públicos consultados pela reportagem, um levantamento que informe quantas pessoas receberam atendimento especificamente por problemas relacionados às apostas. A cidade, no entanto, possui CAPS Adulto, CAPS Infantojuvenil e CAPS Álcool e Drogas, além da emergência psiquiátrica instalada no Pronto-Socorro André Sacco, no Pestana.
Em março de 2026, o município também entregou uma nova ala de atendimento psiquiátrico no pronto-socorro. Para Luciana, olhar para o jogo como uma questão de saúde ajuda a combater outro obstáculo: “Não podemos resumir esse problema à falta de força de vontade. Quando existe perda de controle e a vida começa a sofrer consequências, a pessoa precisa de acolhimento e avaliação profissional, sem julgamento e sem estigma”.
PEDIR AJUDA TAMBÉM FAZ PARTE DA RECUPERAÇÃO
Desde 4 de agosto de 2026, o SUS ampliou a capacidade de atendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. O Meu SUS Digital passou a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais, com consultas psicológicas por videochamada e suporte também aos familiares. O Ministério da Saúde informa ainda que mais de 1 milhão de pessoas já solicitaram a autoexclusão do CPF das plataformas autorizadas. Entre elas, 35% apontaram a perda de controle sobre o jogo como motivo e 11,82% citaram dificuldades financeiras. O serviço remoto também funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial, que inclui UBS e CAPS.
Reconhecer o problema, porém, não faz desaparecer de imediato as dívidas, os conflitos ou a confiança perdida dentro de casa. A recuperação pode exigir acompanhamento em saúde mental, reorganização financeira e participação da família.
“Não é preciso esperar que a situação chegue ao limite. Se as apostas começaram a interferir no orçamento, no trabalho, nas relações ou na rotina, já existe motivo para procurar orientação”, reforça Luciana.
Por trás das telas coloridas, dos bônus e da promessa de uma próxima chance, existe uma fronteira que merece atenção: quando apostar deixa de ocupar o lugar do entretenimento e passa a comandar decisões, recuperar a própria vida se torna mais importante do que tentar recuperar a última perda.
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