Quando o golpe conhece seu nome | A engrenagem por trás das fraudes digitais

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O criminoso pode chegar à conversa com uma vantagem: saber o nome de quem atende, ter acesso a dados pessoais e usar essas informações como prova de uma credibilidade inexistente. O pedido de dinheiro vem depois, sob o pretexto de resolver uma emergência, proteger uma conta ou aproveitar uma oportunidade.

No Brasil, 32% dos usuários de internet com 16 anos ou mais, cerca de 45 milhões de pessoas, relataram tentativas de golpes com uso de seus dados pessoais, segundo pesquisa divulgada pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), em 31 de agosto. Entre os usuários expostos a essas tentativas, 84% citaram aplicativos de mensagens e 79%, ligações telefônicas. A fraude encontra espaço justamente nos canais incorporados à rotina.

Em São Paulo, outro levantamento dimensiona essa exposição: estudo da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), realizado em 2025, apontou 88% dos moradores do estado como alvos de tentativas de golpes digitais, aproximadamente 30 milhões de pessoas. Os números não permitem comparação direta com os do Cetic.br, pois tratam de públicos e recortes distintos, mas ajudam a compreender a presença dessas abordagens no cotidiano. Uma tentativa também não significa prejuízo consumado.

Entre receber a mensagem e transferir dinheiro, existe uma disputa pela confiança da vítima – e conhecer informações verdadeiras sobre ela pode tornar a mentira mais convincente.

DE ONDE O GOLPISTA TIROU MEUS DADOS?

Não há uma origem única. Invasões de contas, programas maliciosos, falhas humanas e negligência na segurança podem expor informações, conforme o Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br). Dados vazados podem circular e alimentar novas fraudes, enquanto publicações abertas nas redes acrescentam detalhes sobre relações pessoais e hábitos. Esse material favorece a engenharia social: a manipulação da confiança, do medo ou da expectativa de vantagem até a vítima entregar informações ou executar uma ação. Saber seu CPF não comprova vínculo com o banco; ter sua foto não comprova identidade. A origem exata dos dados usados em cada caso depende de apuração. 

FRAUDE GANHA ROSTO, VOZ E APARÊNCIA OFICIAL

A inteligência artificial acrescenta recursos à falsificação: áudios e vídeos podem simular a voz e a imagem de pessoas conhecidas, alerta o Banco Central. Na publicidade digital, o problema também aparece em números. Levantamento do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, divulgado pelo Ministério da Fazenda em agosto, identificou 544 anúncios fraudulentos nas plataformas da Meta entre 1º de abril e 14 de junho; 38% usavam inteligência artificial.

As peças exploravam falsas oportunidades de renegociação de dívidas. Em 72% dos anúncios, nomes e imagens do governo e de marcas conhecidas dos setores financeiro e de comunicação conferiam aparência de legitimidade. A presença de um logotipo ou de um rosto familiar, portanto, não autentica uma oferta.

CRIANÇAS EXPOSTAS E PLATAFORMAS SOB COBRANÇA

O advogado Jô Antiório, especialista em direito digital, em entrevista ao GritaCast em março deste ano, aborda a importância de proteger a imagem de crianças e adolescentes e os desafios das plataformas na verificação de idade e na remoção de conteúdos indevidos ou falsos.

“O cuidado começa antes da publicação: fotos, identificação da escola e registros de rotina podem revelar mais do que a família pretende compartilhar. O debate também alcança as empresas que, para prevenir abusos, têm de possuir mecanismos de proteção e resposta às denúncias. A segurança do ambiente digital não pode depender exclusivamente da capacidade de cada usuário reconhecer uma ameaça.”

José Antonio Figueiredo Antiório Filho (Jô Antiório)

O QUE SE ENTREGA AO ACEITAR OS TERMOS?

Biometria, reconhecimento facial e termos de uso aceitos sem leitura integram outro ponto levantado por Jô. A conveniência de liberar um acesso com o rosto exige atenção à coleta e ao destino dessas informações: quem as recebe, com qual finalidade e sob quais medidas de segurança? Há também golpes na própria obtenção da imagem.

O Banco Central alerta sobre falsos entregadores capazes de solicitar fotos ou vídeos da vítima e usar esse material em fraudes de abertura de contas ou contratação de empréstimos por reconhecimento facial. O risco exige cuidado com pedidos inesperados de identificação e transparência das organizações responsáveis pelos dados.

“Os crimes digitais atingem tanto o patrimônio quanto a dignidade das pessoas. Há fraudes financeiras, perfis falsos usados em golpes, ataques à honra e invasões de dispositivos destinadas ao roubo de informações. A prevenção exige cuidado com os dados pessoais, mas também compromisso das empresas com a segurança de seus serviços. Quem sofre uma dessas violências precisa preservar as provas e procurar as autoridades.”, comenta Jô Antiório.

MEDO DE PERDER A RENDA VIRA ARMADILHA

Entre aposentados e pensionistas, a ameaça de interrupção do benefício serve como instrumento de pressão. Em alerta recente, o INSS descreveu mensagens fraudulentas com pedidos de atualização da prova de vida e ameaça de corte caso o destinatário não entregasse os dados imediatamente. A abordagem explora uma preocupação concreta: a continuidade da renda.

No caso de pessoas idosas com pouca familiaridade digital, reconhecer uma página falsa ou conferir um remetente pode representar uma dificuldade adicional. Orientação acessível e apoio sem constrangimento ajudam a criar espaço à checagem. Dúvidas sobre essas mensagens devem ser esclarecidas pelo Meu INSS ou pela Central 135.

COMO CONFERIR UMA LIGAÇÃO, MENSAGEM OU VÍDEO

A verificação mais segura passa por um contato independente daquele iniciado pelo possível golpista. Diante de uma cobrança ou suposto problema bancário, interrompa a conversa e procure a instituição pelo aplicativo oficial ou pelo telefone indicado no cartão. Se houver pedido de dinheiro em nome de um familiar, confirme pelo número já conhecido ou pessoalmente; imagem e voz, isoladamente, não bastam. Não entregue senhas nem códigos de autenticação e confira o destinatário antes de qualquer transferência. Se a fraude já ocorreu, avise imediatamente o banco, preserve mensagens e comprovantes e registre boletim de ocorrência.

A pressa exigida por quem pede dinheiro deve ser motivo de checagem, nunca uma razão para dispensá-la.

“Os crimes digitais atingem tanto o patrimônio quanto a dignidade das pessoas. Há fraudes financeiras, perfis falsos usados em golpes, ataques à honra e invasões de dispositivos destinadas ao roubo de informações. A prevenção exige cuidado com os dados pessoais, mas também compromisso das empresas com a segurança de seus serviços. Quem sofre uma dessas violências precisa preservar as provas e procurar as autoridades”, alerta Jô Antiório.

José Antonio Figueiredo Antiório Filho (Jô Antiório)

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Wellington Torres

Jornalista (Mtb nº 78/915/SP), pós-graduado em Assessoria de Comunicação e Mídias Digitais (Anhembi Morumbi), Marketing/Analytics (Anhanguera) e atualmente cursando faculdade de Letras (Univesp). Heavy user de redes sociais, fã de tecnologia e assisto uma série de vez em quando.

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