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Intelectuais orgânicos e inorgânicos

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Esquerda hoje é feita de pessoas fofas, e direita ainda é vista como assassina.

Um fato que sempre me chama a atenção é a transformação da esquerda ao longo das últimas décadas.

A direita, essa “bandida” apegada ao passado, ao mercado, à exclusão e à insensibilidade com os vulneráveis, costuma ser mais fácil de ser mapeada de modo rápido. Talvez uma das causas dessa percepção mais “ágil” seja o fato de que as histórias dos intelectuais e da política é contada por profissionais das letras, mais próximos da esquerda.

Mas um intelectual pode se identificar com uma certa posição política e, ainda assim, manter a consistência analítica. Esse é o caso de Tony Judt (1948–2010). Entre várias das suas obras, “Past Imperfect – French Intellectuals, 1944-1956”, publicada pela Oxford University Press (original em francês) em 1992, é uma pérola.

Com exceção de Camus, todos os citados se saem bem mal. Diante dos horrores dos regimes comunistas do Leste Europeu que começavam a vir à tona na época —mais tarde, o mesmo aconteceria com os regimes do extremo leste da Ásia—, essa gente chique defendeu até onde pôde o terror revolucionário,
mesmo contra depoimentos de antigos comunistas do Leste Europeu que conseguiram escapar das torturas e do fuzilamento público humilhante.

E por quê? Judt, ele mesmo um social-democrata convicto, no velho estilo europeu continental do pós-Segunda Guerra —de esquerda, portanto— beira suspeitar do caráter com relação aos colegas intelectuais.

Em 1998, ele retoma a temática analisando Camus mais de perto, além de Léon Blum e Raymond Aron, em “O Peso da Responsabilidade”. Estes três se saem bem melhor no que tange ao modo corajoso de enfrentar o terror dos regimes comunistas. Isso em plena Guerra Fria, quando ser confundido com alguém que era pró-Estados Unidos era quase como ser suspeito de pedofilia entre os intelectuais franceses.

Guardando-se as diferenças entre os três, uma semelhança era o traço inorgânico.

As grandes figuras estudadas na obra de 1992 (menos Camus) operavam dentro da categoria de intelectual orgânico, num sentido não alinhado ao Partido Comunista, mas alinhado ao comunismo ideologicamente. Ser um intelectual inorgânico, como diz Judt mais especificamente em relação a Camus, é pensar fora de qualquer programa político a priori. Camus sempre fora de esquerda, e morreu sendo, mas nem por isso se dobrou às demandas de defesa do terror soviético em nome da necessidade histórica revolucionária.

Sartre é o que saiu mais sujo da história, talvez por ter sido o mais famoso de todos da época. Beauvoir (como escreve Judt) acabou por colar como feminista, e nessa se virou bem na posteridade. Mas o fato é que, fora Camus, todos eles, à esquerda, defenderam e escreveram textos justificando o terror revolucionário (incluindo Simone de Beauvoir).

Vale salientar que, com a Segunda Guerra e o regime de Vichy na França, aliado dos nazistas, os intelectuais orgânicos fascistas à direita tiveram seu momento de glória vergonhosa.

A lição que se aprende dessas duas obras, entre tantas, é que ser um intelectual orgânico, à esquerda ou à direta, é sempre uma opção que facilmente pode comprometer o próprio exercício da atividade pública do pensamento e sua função social essencial. Os inorgânicos, ao longo do século 20, parecem ter se saído melhor do ponto vista moral.

Para além deste fato, outra questão a se refletir é: por que a esquerda hoje teme tanto que lhe seja lembrado o seu amor ao terror revolucionário?

A direita permanece presa à imagem de assassina no Brasil, inclusive graças à ditadura recente. Mas a esquerda conseguiu razoavelmente se afastar de um passado que a condena. A esquerda hoje é feita de pessoas fofas. Preocupa-se com banheiros, questões de gênero, meio ambiente e outros temas tipicamente burgueses —e, com isso, não retiro o peso de alguns deles. A esquerda virou um fetiche da burguesia.

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