A sociedade sem ar. Pandemia, preconceito, manifestações e violência

A sociedade sem ar

Os astronautas Doug Hurley e Robert Behnken realizaram no sábado (30) o primeiro voo espacial privado da história com a parceria Nasa-SpaceX. Depois de 8 minutos e 50 segundos, o módulo tripulado já estava fora da Terra e a primeira fase do foguete ligou as turbinas para pousar sobre uma plataforma no meio do oceano.

Enquanto isso, os protestos públicos contra o racismo desencadeados com a morte de George Floyd entravam no quinto dia consecutivo em diversas cidades dos Estados Unidos. Floyd, negro, 46 anos, desempregado, morreu em uma abordagem policial na cidade de Minneapolis por, supostamente, utilizar uma nota falsa de 20 dólares.

As imagens de Floyd sufocado pelo joelho do policial Derek Chauvin, branco, por 8 minutos e 46 segundos são semelhantes ao vídeo do assassinato de Eric Garner em 2014 na cidade de Nova York, quando um policial lhe aplicou um mata-leão enquanto o prendia. Garner arfou oito vezes as palavras “Não consigo respirar” antes de morrer. Exatamente a mesma súplica de Floyd: “Eu não consigo respirar”. Falta ar por toda parte.

Como afirmou Franco Berardi, veterano das manifestações francesas de maio de 1968, nos ensaios recém-lançados em “Asfixia” (Ubu Editora): “De muitas formas diferentes, essas palavras expressam o sentimento geral de nossos tempos: a falta física e psicológica de ar por toda parte, nas megacidades sufocadas pela poluição, nas condições precárias da maioria dos trabalhadores”.

De fato, efeitos da pandemia de covid-19 como o fechamento de fronteiras nacionais, os protocolos de distanciamento social, o uso de máscaras em ambientes públicos e a falta de respiradores nos hospitais, aumentaram a sensação de asfixia.

Neste contexto, é um alívio ouvir as palavras de Bernice King, filha mais nova do pastor Martin Luther King Jr., o eminente líder na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos na década de 1960. Diante da escalada da violência nos protestos com a morte de Floyd, Bernice afirmou enfaticamente em Atlanta: “A única maneira de conseguirmos o que realmente queremos é através da não-violência”. Nos Estados Unidos, as manifestações começaram pacíficas, mas logo explodiram em confrontos violentos com depredação de carros policiais, incêndios e saques de lojas.

O grosso do movimento é descentralizado, anônimo, sem liderança e formado por jovens. As advertências de Bernice ecoam as críticas feitas por seu pai à postura dos Estados Unidos em seu tempo: “Se nossa nação pode gastar 35 bilhões de dólares por ano para combater em uma guerra injusta e maligna no Vietnã e 20 bilhões de dólares para colocar um homem na lua, pode gastar bilhões de dólares para colocar os filhos de Deus em seus pés aqui mesmo na terra”.

Em outra ocasião, no contexto da Guerra Fria entre EUA e União Soviética, King afirmou: “Nestes dias em que Sputiniks e Explorers atravessam o espaço sideral e mísseis guiados estão escavando estradas da morte na estratosfera, ninguém pode vencer uma guerra.

Hoje a escolha não é mais entre violência e não-violência. É não-violência ou não-existência”. King não criticou o progresso científico e tecnológico da corrida espacial, mas denunciou a barbárie das guerras, destacando a necessidade do compromisso ético com a paz e a justiça social.

Afinal, quando os seres humanos querem conviver eles conseguem, mesmo quando são de diferentes etnias e nações. Por isso, os astronautas Hurley e Behnken se encontrarão e compartilharão oxigênio na Estação Espacial Internacional com o astronauta Chris Cassidy, da Nasa, e os cosmonautas Anatoly Ivanishin e Ivan Vagne, da Roscosmo, a agência espacial russa.

Davi Lago é mestre em Teoria do Direito e graduado em Direito pela PUC-MG. É pesquisador do Instituto Pensando o Brasil, pastor batista e autor do livro Brasil Polifônico – Os evangélicos e as estruturas de poder.

 

 

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