Bets proibidas | É preciso refletir sobre quem cuida de quem ficou com as dívidas e a dependência
Retirar uma plataforma do ar não apaga as dívidas nem encerra o sofrimento de quem perdeu o controle sobre as apostas. Com a publicação da Medida Provisória nº 1.394/2026, em 25 de setembro, o Brasil proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets em todo o território nacional. A decisão, justificada pelo Governo pelos impactos sobre a saúde e o orçamento das famílias, abre outra etapa: além de interromper as operações, será necessário enfrentar os prejuízos acumulados e garantir assistência às pessoas afetadas.
A mudança tem consequências imediatas. Novos depósitos estão proibidos, e os apostadores têm até as 23h59 de 5 de outubro ao resgate voluntário dos saldos disponíveis. Sites e aplicativos deverão sair do ar em 6 de outubro; entre os dias 9 e 14, as instituições financeiras deverão devolver os valores remanescentes informados pelas empresas.
Outras modalidades de loteria autorizadas por lei não estão abrangidas pela proibição. Embora já esteja em vigor, a MP depende de aprovação da Câmara e do Senado em até 120 dias.
UMA CONTA ALÉM DO SALDO BANCÁRIO
O tamanho do problema aparece em um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), elaborado com a Frente Parlamentar da Saúde Mental e a Umane. O levantamento estima em pelo menos R$ 38,8 bilhões anuais os custos sociais associados ao jogo problemático, dos quais R$ 30,6 bilhões correspondem a danos à saúde.
A estimativa reúne despesas diretas e impactos como perda de qualidade de vida, emprego e moradia. O próprio instituto ressalva: associação não comprova, isoladamente, uma relação direta de causa e efeito entre o jogo e todos os danos considerados.
Dentro de casa, os sinais nem sempre começam com uma dívida impossível de pagar. Esconder gastos, comprometer despesas essenciais, abandonar atividades e voltar às apostas na tentativa de recuperar perdas são comportamentos de alerta. Segundo orientações do Ministério da Saúde, a dificuldade de interromper o jogo merece atenção e apoio.
A Organização Pan-Americana da Saúde também destaca os efeitos sobre os vínculos familiares, a vida profissional e o bem-estar. Quando há perda de controle e persistência apesar dos prejuízos, pode existir um transtorno relacionado a jogos de apostas.
A DEPENDÊNCIA TAMBÉM ATINGE QUEM NUNCA APOSTOU
O prejuízo das apostas compulsivas chega também a quem nunca abriu uma conta nessas plataformas. Cônjuges, pais e filhos enfrentam dívidas, ansiedade e a quebra de confiança dentro de casa, alerta a psicanalista clínica Dra. Selma Nalli:
Não se trata simplesmente de falta de força de vontade. É um problema que exige acolhimento, tratamento especializado e responsabilidade. Em alguns casos, a aposta ocupa o lugar de uma tentativa de aliviar a ansiedade, preencher um vazio ou escapar das dificuldades. A expectativa de recuperar o dinheiro perdido pode alimentar novas apostas e aprofundar os danos financeiros e emocionais”.
O cuidado, portanto, precisa alcançar toda a família. Selma defende apoio psicológico, orientação financeira e limites capazes de preservar a segurança dos familiares. “Acolher não é encobrir, e amar não significa assumir todas as consequências das escolhas do outro”, ressalta.
Incentivar o tratamento não implica financiar novas apostas ou esconder prejuízos. A recuperação envolve reconhecer os danos, buscar ajuda profissional e reconstruir a confiança, mas os familiares não precisam esperar o reconhecimento do problema pelo apostador antes de procurar assistência.
Nenhuma família deveria precisar adoecer em silêncio para provar que ama alguém”, conclui.
A Psicanalista Dra. Selma Nalli, inclusive, participou da edição #122 do GritaCast, em julho de 2024. A profissional tratou da importância de romper o silêncio em torno da saúde mental. Essa contribuição oferece uma perspectiva de cuidado ao debate sobre os efeitos das apostas.

Os efeitos da decisão também alcançam o futebol, a publicidade e os negócios construídos em torno das bets. A medida impede novas ações de divulgação e estabelece a retirada dos anúncios e materiais de patrocínio até 5 de outubro. Clubes, veículos e empresas com receitas vinculadas ao setor passam a enfrentar a necessidade de rever suas parcerias. O texto ainda afasta indenizações às operadoras por investimentos, lucros esperados ou valores pagos pelas autorizações. O alcance econômico da mudança amplia o debate, mas não substitui a necessidade de atendimento às famílias afetadas.
DESAFIO DAS PLATAFORMAS CLANDESTINAS
Outro ponto decisivo será a capacidade de impedir a continuidade das operações ilegais. A MP prevê um comitê de fiscalização, coordenado pela Casa Civil, além do bloqueio de domínios, da remoção de aplicativos, da restrição de meios de pagamento e do rastreamento de recursos. Essas medidas mostram como o enfrentamento ultrapassa a retirada dos sites conhecidos. A efetividade da proibição dependerá da execução dessas ações; na saúde, a resposta também exige prevenção e acesso ao cuidado, conforme a abordagem defendida pela Organização Pan-Americana da Saúde.
ONDE BUSCAR AJUDA
Quem percebe perda de controle, conflitos familiares ou prejuízos ligados às apostas pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um serviço da Rede de Atenção Psicossocial do SUS. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) acolhem pessoas em sofrimento psíquico intenso e oferecem acompanhamento multiprofissional, com apoio também aos familiares.
Conforme a avaliação de cada caso, o cuidado pode envolver psicoterapia, reconstrução dos vínculos e reorganização financeira. O calendário de encerramento das bets estabelece datas; a recuperação das pessoas exige acompanhamento adequado às necessidades de cada uma.
Como psicanalista, acredito que precisamos olhar para esse problema com humanidade, sem preconceito, mas também sem ignorar as responsabilidades. Porque a pergunta não é apenas como ajudar alguém a parar de apostar. É também como acolher aqueles que estão sofrendo as consequências sem nunca terem feito uma aposta”, conclui a Dra. Selma Nalli.
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