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O Brasil começou em uma Páscoa

Davi Lago
Escritor, mestre em Teoria do Direito e pesquisador. Colabora com o blog com textos sobre marcos civilizatórios e sociedade contemporânea

A presença da religiosidade cristã é incontornável no Brasil. O Censo 2010 do IBGE verificou que os cristãos ultrapassam 87% da população brasileira. Essa força se reflete em toda a cultura brasileira. A estátua do Cristo Redentor é o cartão postal carioca. Os azulejos de Portinari ornam a belíssima Igreja da Pampulha em Belo Horizonte, desenhada por Oscar Niemeyer. A cidade de São Paulo, maior centro financeiro do hemisfério Sul carrega o nome do “apóstolo cristão aos gentios”. Mas a lista de nomenclaturas cristãs em cidades brasileiras é muito extensa e inclui “Belém” no Pará e “Salvador” na Bahia. Na poesia de Cecília Meireles são inúmeras as referências cristãs. Na comemoração do ouro olímpico inédito para nosso time de futebol, o principal jogador na partida Neymar Jr. usou uma faixa com a expressão “100% Jesus”. Não é necessário fazer esforço, basta olhar em qualquer direção no tempo-espaço brasileiro do século 16 ao início do 21: dos maiores monumentos às mais brandas alusões, haverá um ícone que remete à fé cristã. Como canta a “Aquarela do Brasil”: “O Brasil, samba que dá/ Bamboleio que faz gingar/ O Brasil do meu amor/ Terra de Nosso Senhor”.

O Brasil começou em uma Páscoa. Exatamente há 519 anos ocorreu o choque de civilizações que deu origem ao nosso país. Temos um “aniversário pascoal”. O escrivão da expedição portuguesa, Pero Vaz de Caminha, em sua “Carta sobre o achamento do Brasil” diz que no dia 21 de abril de 1500 avistaram “sinais de terra”. No dia seguinte avistaram a terra com clareza: um monte muito alto e redondo e terra com grandes arvoredos. A carta de Caminha afirma que o líder da expedição, Pedro Álvares Cabral, “ao monte alto pôs nome — o Monte Pascoal e à terra — a Terra da Vera Cruz”.

Mas seria o Brasil a terra da verdadeira (vera) cruz? Afinal, o que é “cruz”? A cruz que hoje é o vértice da cristandade antes era instrumento cruel de execução e símbolo de dominação pelo Império Romano. Depois a cruz se tornou símbolo da entrega, renúncia, amor e salvação na tradição cristã. Santo Agostinho sintetizou a mensagem cristã da seguinte forma: “posto que o homem caiu por orgulho, Deus recorreu à humildade para o curar”. Na célebre expressão de Edward Gibbon, “a cruz triunfou sobre o capitólio”, pois apesar da cruel intolerância e perseguição aos cristãos, eles se multiplicaram. O ponto é que a cruz continua carregando os dois significados: a história demonstra que ela foi novamente transformada em capitólio, em cruz de dominação em diversas ocasiões. Por exemplo, muitos traficantes de escravos realizaram suas ações com “justificativas” religiosas. Nestas situações a cruz perde completamente seu sentido cristão e volta a ter o sentido imperial. É como escreveu o poeta Castro Alves: “O Século é grande… No espaço há um drama de treva e luz. Como o Cristo – a liberdade sangra no poste da cruz”.

Como compreender o cerne da fé professada por 87% dos brasileiros? Conforme descrevem Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling em “Brasil: Uma Biografia”, a reação inicial dos portugueses foi de encanto diante desta terra nova, mas também de vontade de posse: “assim, imediatamente se criaram nomes para tudo o que se descobria”. Por outro lado, Joaquim Nabuco figura-chave na abolição da escravidão no Brasil, registrou na obra “Minha Formação” em 1900 suas reflexões acerca da cruz quando participou da missa de Bela Aliança: “O pensamento voltava quase quatro séculos atrás, à primeira missa dita no Brasil, quando ele tomou o nome de Terra de Santa Cruz… Quatro séculos para a cruz recuperar o seu verdadeiro sentido de símbolo da redenção e para a missa significar o sacrifício de Deus pelo homem”. No Brasil, a Páscoa é sempre oportunidade de revisitarmos nossa própria história.

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